NO SILÊNCIO DA NOITE antonio júnior

18/08/2004 08:16



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JULIAN SCHNABEL

"A ARTE ME FAZ SENTIR VIVO"


O diretor de “Antes que Anoiteça”, um dos pintores mais célebres do cenário novaiorquino, mostra o seu trabalho no Palácio de Velázquez de Madri


por Antonio Jr
de Madri



Famoso por suas telas vanguardistas e aclamado por um público que vê nele um digno sucessor dos melhores pintores do expressionismo abstrato e da pop-art, o norte-americano Julian Schnabel nao se acomoda na pintura, arriscando o seu talento em filmes biográficos como “Basquiat” (1996) e “Antes que Anoiteça” (2000), cujos criativos protagonistas sao inadaptados socialmente, com vidas loucas e trágicas.
Nascido em 1951, Schnabel fez sua primeira exposiçao individual em 1979, tornando-se um artista pouco convencional, com obras de grande tamanho, rompendo estilos, utilizando materiais diversos e oscilando entre o abstrato e o figurativo. Casada com a modelo espanhola Olatz López Garmendia, apresenta em Madri sua produçao pictórica dos últimos seis anos.
Nesta entrevista, falo do seu conceito artístisco, da idéia de um mundo melhor e dos filmes que realizou.

Vive entre San Sebastian e Nova York, é casado com uma vasca e agora expoe em Madri. Poderia ser considerado quase meio espanhol?

Quem sabe? Conheci a Espanha nos anos 70, vinha da Itália de barco. Passei por Ibiza e Barcelona. Fiquei impressionado com a alegria das pessoas e sozinho, num hotel barato das Ramblas, surgiu a idéia de fazer quadros com pratos quebrados, porque fiquei de boca aberta com os mosaicos de Gaudí no Parque Güell. Mas nasci nos Estados Unidos, sou filho de um judeu tcheco, e gosto de pensar que a arte rompe fronteiras. Sendo assim, deixo de ser um artista norte-americano ou um artista espanhol e passo a ser somente um artista. Minhas experiências artístiscas em diversos países nao se sustentam pela nacionalidade.

Filmou as biografias do pintor Jean-Michael Basquiat e do escritor cubano Reinaldo Arenas. Por que tanto interesse pela vida de artistas malditos?

Gosto do risco de contar histórias de artistas geniais, originais e marginalizados pela sociedade. E Reinaldo Arena nao tem nada a ver com Basquiat, apenas sao artistas e personagens reais, porém viveram em mundos completamentes diferentes. Dediquei cinco anos de minha vida para colocar nas telas a vida de Arenas. Queria revelar ao mundo o seu talento e sentido de humor.

“Antes que Anoiteça” foi muito falado, premiado e tornou Javier Bardem uma estrela internacional. O “lobby” homossexual ajudou muito na divulgaçao?

De certa forma. Eles ficaram muito contente porque retrato a um homossexual que nao cae na caricatura. Estao cansados dos homossexuais sem orgulho nem coragem dos filmes de Hollywood. Reinaldo era alguém com uma grande humanidade. Isto me interessou mais do que fazer outro filme sobre um homossexual. “Antes que Anoiteça” trata na realidade de um ser humano visto com dignidade. Alguém que teve a coragem de atravessar diversas circunstâncias sem render-se.

Declarou algumas vezes que nao se interessa por política, mas “Antes que Anoiteça” é um filme bastante político.

Nao é um dos meus temas favoritos, mas tampouco ignoro o que acontece a minha volta. Nao entendo porque existem seres humanos tao negativos, já que formamos parte de um único mundo. Devemos aprender a perdoar e compreender um ao outro. A vida nao é justa, porém podemos criar um código de conduta para nós e os demais. Isso ajuda a viver dignamente. Os Estados Unidos, por exemplo, se converteu num país reacionário e nós somos os culpados. É incrível como sao incultas as pessoas que dirigem o meu país. Mas toda arte é política, pois transmite uma série de informaçoes e provoca reaçoes.

Muitos criticam sua versatilidade. Nao entendem como pinta, dirige filmes, escreve.

Sou o mesmo artista quando pinto ou dirigo um filme, a mesma pessoa utilizando diferentes partes do cérebro. Nao compreendo como as pessoas acham estranho fazer mais de uma coisa de uma só vez. Um filme tem uma narrativa, uma história; um quadro abriga os dêmonios do seu autor. Eu acho que um filme, um quadro ou um texto podem muito bem se relacionar entre eles. Pintar e escrever sao trabalhos solitários, já dirigir um filme é uma questao de colaboraçao, de equipe. Gosto das três opçoes, e creio que todo esse processo artístico me ajuda, me faz sentir vivo.

A exposiçao no Palácio de Velázquez exibe os seus últimos seis anos como pintor...

Ela estava em Frankfurt e agora em Madri. É um velho projeto. Eu queria muito mostrar o meu trabalho para uma geraçao de jovens espanhóis que nao conhecem minhas obras. Minha ultima grande exposiçao em Espanha, “Reconocimientos”, foi no final dos anos 80, no Convento Cuartel del Carmen de Sevilla, um espaço abandonado preparado para a ocasiao. É uma das minhas favoritas. Sou um grande privilegiado porque a minha obra vem sendo reconhecida em muitos lugares, e sem que eu perca minha meta, minhas convicçoes. Nunca pintei por dinheiro, nunca fiz uma obra pensando que ficaria bem na parede de alguém.

O que representa a pintura para você?

É algo mágico, libertador, porque as normas que regem o que acontece no mundo da pintura nao sao as mesmas que regem o mundo real. Na pintura nao se tem limites, é algo incomum. É maravilhoso admirar uma obra e se sentir bem. Eu gosto de ficar em casa pintando ou tentando pintar. Me aborrece um pouco a vida cotidiana, e a arte me liberta das limitaçoes do cotidiano. No mundo da arte tenho também uma certa responsabilidade com os jovens artistas que gostam de minha obra, nao poderia mentir para eles. Portanto, pinto sempre o que sinto e tenho vontade. O que para muitos constitue uma ameaça, já que nao aceitam inovaçoes.

Diz que gosta de ficar em casa, pintando, mas como, se é conhecido também por sua intensa vida social?

Nao é verdade. Saio pouco, porém basta sair um dia para que montes de fotografias sejam tiradas, enchendo páginas de revistas. Entao todo mundo pensa que vivo de festa em festa. Além disso, tenho muitos amigos famosos, que conheci através de minha obra, e basta um encontro com um deles para provocar resenhas na mídia.

Fala de Sean Penn e Johnny Depp, que trabalharam de graça para você em “Antes que Anoiteça”?

E também Al Pacino, Robert de Niro, David Bowie ou Christopher Walken. Mas nao me importa a fama. A única vantage de ser uma celebridade é conseguir uma boa mesa nos restaurantes. Sou apenas um personagem singular, um tipo fora do sistema que conta com o apoio e a generosidade de muitas estrelas. Vivo dentro do mundinho dos famosos há décadas e conheço suas consequências. Fui muito amigo de Andy Warhol. Para mim é um dos principais artistas do século 20. Ele estava muito além de seu tempo.

Qual o seu próximo projeto cinematográfico?

Chama-se “The Butterfly”. Falo de um homem que sofre uma enfermidade e entra em coma, quando desperta está imobilizado e só pode abrir e fechar um olho. Aprende a se comunicar com esse olho e, dessa forma, é capaz de escrever um livro. É uma história sobre a iluminaçao e a consciência pessoal. Quantas vezes estamos com o corpo perfeito e nao apreciamos, e até nos queixamos? Quase sempre.


“Schnabel – Pinturas. 1998-2003”
Palácio de Velázquez de Madrid
Até 13 de Setembro.


enviada por antonio jr



30/07/2004 06:41







Úbeda, de Antonio Jr




Quentin Tarantino

CELEBRANDO A VIOLÊNCIA


por Antonio Jr
de Madri (Espanha)



Quatro anos depois de “Jackie Brown”, filme que deu continuidade a uma popular carreira iniciada com “Reservoir Dogs”, Quentin Tarantino (Knoxville, Tennessee, 1963) finalmente concluiu o seu projeto mais ambicioso: “Kill Bill Vol. I e II”. O argumento fala de uma mulher identificada como “A Noiva” (Uma Thurman) que sofre uma tentativa de assassinato minutos antes do seu casamento. Depois de um coma de quatro anos, resolve vingar-se de quem tratou de eliminá-la.

A primeira parte foi sucesso absoluto em todo o mundo. Espera-se o mesmo de “Kill Bill Vol. II”. O autor do clássico “Pulp Fiction”, completamente de negro, apresentou o seu novo filme esta semana em Madri. Simpático e divertido, Tarantino estava acompanhado da namorada Sophia Coppola, do ator David Carradine (Kung Fu) e do produtor Lawrence Bender, falando sem parar e com entusiasmo de sua obra cheia de influências.


AJ - Como traduziria “Kill Bill Vol. 2”?

QT – Pode ser descrito como um spaghetti-western com sabor oriental. É um filme épico que na primeira parte busca a sensaçao da açao e na segunda explica as interrogaçoes da primeira. Sao vários filmes juntos. Mostro kung-fu, vinganças, samurais. É uma declaraçao de amor e uma homenagem a filmes orientais e italianos. Nele, se cruzam Sergio Leone, Sonny Chiba e os irmaos Shaw. Alguns personagens e sequências estao inspirados nas clássicas séries de TV, “The Green Hornet” e “Kung Fu”. O título é “Kill Bill”, Matar a Bill, assim que a violência é um dos elementos, é a etiqueta.

AJ – Mesmo menos sangrenta que a primeira parte, “Kill Bill Vol. 2” tem propositalmente a violência como tema central?

QT – O tema central é o amor maternal. O personagem de Uma Thurman é uma leoa que defende seus filhotes. A violëncia dos dois filmes existe, sobretudo, por razoes estéticas. Sei que a violência seduz, e a uso como algo totalmente gráfico, fascinantemente cinematográfico. Por isso a utilizo tanto. Sempre pensei que o cinema foi inventado para mostrar gente matando-se e beijando-se.

AJ – Muitos criticam os filmes de açao e violência...

QT – Desde menino tinha vontade de dirigir filmes de açao. Para mim, os filmes de açao e violência sao os melhores. Meu objetivo com “Kill Bill” era rodar as melhores cenas de açao da história do cinema. Se consegui ou nao, será uma decisao do público. Garanto que se dizem que o meu filme é apenas bem realizado, me sinto ofendido. Nao queria fazer um filme de açao bem feito, e sim um filme de açao que fosse uma obra-prima. Para isso, usei diversos estilos, ritmos e técnicas. Sempre utilizo o que necessito para transmitir emoçoes.

AJ – Entao acredita que fez uma – ou duas? – obras-primas?

QT – Na verdade quando vejo os dois filmes fico envergonhado. É que vejo o meu interior. Sao trabalhos muito pessoais. Pensei na história durante muito tempo, desde as filmagens de “Pulp Fiction”. Nos primeiros 12 meses escrevi mais de 250 páginas. Depois voltei a reescrever algumas partes que me pareciam mal resolvidas. Finalmente resolvi colocar no filme quase tudo que escrevi. Assim, a idéia de um filme de duraçao mais ou menos normal, terminou transformando-se em duas partes.

AJ – Verdade que o roteiro foi escrito em bares?

QT – Quando tive a idéia de “Kill Bill”, decidi que deveria escrevê-la em Nova York. Percorri a cidade de ponta a ponta. Me sentava em todos os tipos de bares, a qualquer hora do dia, e escrevia. É que nao costumo trabalhar com computador. Todos os meus roteiros escrevo a mao.

AJ – Dizem que pensa numa terceira parte em torno da vingança da filha de Vernita Green (Vivica A.Fox)?

QT – Talvez dentro de uns quinze anos. A grande vantagem de trabalhar com amigos, e nao só com atores, é que podemos fazer planos a longo prazo. E a Uma Thurman é muito minha amiga.

AJ – É considerada a sua atriz fetiche.

QT – Ela é a única pessoa que entende nao só a minha forma de pensar, como também a minha relaçao entre a vida e o cinema. Durante as filmagens de “Pulp Fiction” a nossa relaçao profissional começou a tornar-se mais especial e profunda do que normalmente tenho com outras atrizes. É a musa de “Kill Bill”. Sem ela nao poderia ter feito o filme. A sua presença está em cada detalhe.

AJ – É algo pouco comum uma atriz protagonizar um filme tao violento...

QT – Nos Estados Unidos, os produtores e diretores de filmes de açao dao papéis meramente decorativos para as mulheres. As coisas estao mudando com o sucesso de “Matrix” e “As Panteras”. Mas para mim nunca foi um obstáculo. Sempre gostei do cine asiático onde mulheres participam de espetaculares combates, e de forma bastante natural.

AJ – Por que nao trabalhou com a tecnologia digital nas cenas de “Kill Bill”? Nao seria mais fácil?

QT – Preferi utilizar as antigas técnicas de Hollywood nas cenas de violência. Queria um sentido de realidade e fantasia puramente cinematográfico. No meu filme, as principais estrelas sao meus artistas e nao os efeitos especiais.

AJ – Qual o seu próximo projeto?

QT – Estou tomando notas para dois roteiros e assim que acabar a divulgaçao mundial de “Kill Bill Vol. 2” volto para casa e irei escrevê-los. Além disso, supervisionarei as ediçoes em DVD das duas partes e mais adiante haverá uma ediçao especial para colecionadores. “Kill Bill” nao acabou com o fim das filmagens.

AJ – Como Presidente do Júri do último Festival de Cannes, que deu a Palma de Ouro ao documentário de Michael Moore, “Fahrenheit 9/11”, considera injusto quando afirmam que foi uma decisao política? Afinal a obra é um ataque direto contra Bush.

QT – Talvez eu seja o cineasta menos político da atualidade. Nunca tomei posiçoes políticas nem decisoes políticas. O filme de Moore foi premiado por sua qualidade cinematográfica.

AJ – Também em Cannes, a sua posiçao ambígua sobre a pirataria de vídeos e DVD foi muito comentada...

QT – Claro que nao gostaria que “Kill Bill” fosse pirateado. Porém no caso da China, onde o governo nao permite que o filme seja exibido, gostaria que os chineses pudessem vê-lo, e a pirataria é a única forma.





Tamara de Lempicka




LONDRES REÚNE 50 OBRAS DE TAMARA DE LEMPICKA, UMA DAS PRINCIPAIS REFERÊNCIAS DA ART DÉCO


por Antonio Jr
de Londres



Entre retratos sofisticados, sensuais, banhados por um atmosférico jogo de luzes e sombras, Lempicka construiu sua própria visao de uma sociedade elegante, tornando cúmplice o espectador ao convidá-lo a observar a intimidade alheia nessas figuras imortalizadas em centenas de reproduçoes gráficas. Parte de seus originais, num total de 50 quadros, foram reunidos na mostra antológica que a Royal Academy of Arts de Londres dedica a sua etapa art déco.



Uma grande expectativa precedeu a abertura, em maio, da retrospectiva da russa Tamara de Lempicka (1895 ou 1900-1980). Era a confirmaçao de seu talento, depois de anos de injusto esquecimento, apenas lembrado brevemente na década de noventa quando suas telas passaram a fazer parte das coleçoes de obras de arte de Barbra Streisand e Jack Nicholson. A mostra, que fica em cartaz até 30 de agosto, resgata sua etapa mais valorizada, que vai do início dos anos vinte aos quarenta, uma época vinculada ao art déco, o estilo que a artista é uma de suas referências obrigatórias. Sao obras fascinadas pelo corpo humano, ressaltando a sensualidade nos volumes carnais e utilizando sabiamente a luz em suave geometria.

Fugitiva da revoluçao russa, bela e inteligente, Lempicka teve vida de estrela de cinema, dominando a noite vanguardista de Paris, conseguindo fama e fortuna. Casada com o formoso e inútil aristocrata Tadeusz Lempicki, chegou a Paris sem qualquer recurso pronta para refazer sua trajetória. Como passou a juventude viajando de férias a Itália e França, conhecendo assim a obra de mestres como Botticelli e Ingres, resolveu dedicar-se a pintura, misturando a técnica dos clássicos com o modernismo cubista. Depois de alguns anos de dureza e aprendizado, conquistou a sofisticada sociedade parisiense com o seu estilo inconfundível na “Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes”, em 1925. Da noite para o dia, tornou-se respeitada pela alta sociedade, deslumbrando a todos com o seu talento. Cheia de vitalidade e louca por dinheiro, Lempicka era capaz de frequentar dezenas de festas, cuidar de sua única filha, apanhar do marido, pintar diariamente, enamorar-se de mulheres e acompanhar boêmios de prestígio: o escritor italiano D’Anunzzio, que fez de tudo para deitar-se com ela; Gertrude Stein, Léger, Dalí, Marinetti – seu conhecido “Auto-retrato no Bugatti Verde”, de 1925, é uma evidente homenagem ao futurismo -, André Gide, Cocteau e um longo e espetacular etcétera, ajudada, obviamente, pelo vício da cocaína.

Abandonada pelo marido cansado do matrimônio infernal, Tamara mergulhou numa crise profunda, mas poucos anos depois voltaria a casar com o rico Barao Kuffner, um alemao de origem judia como ela. Fugindo do nazismo, partiram para Nova York e Los Angeles. As festas inacreditáveis que deram nos Estados Unidos contavam, entre os convidados, com Greta Garbo, Tyrone Power, Joan Crawford, Orson Welles, Rita Hayworth e outros astros. Nos anos cinquenta sua arte já nao era tao valorizada, e em 1961, com a morte do marido, mudou-se para Cuernavaca, no México, até o final dos seus dias, aos oitenta e poucos anos. Suas cinzas fora lançadas de um helicóptero sobre o vulcao de Popocatépetl por expresso desejo da pintora.

Vinte e quatro anos passados, Tamara de Lempicka, bela e livre como poucos, sobrevive na coleçao particular de mitos como Madonna, em álbuns de luxo ou capas de romances, e redescoberta nessa exposiçao da Royal Academy of Arts, fica evidente que sua criaçao nao seria nada sem sua vida intensa e vice-versa.


Tamara de Lempicka
Royal Academy of Arts de Londres (Inglaterra)
De 15 de maio a 30 de agosto.




Estúdio de Tamara



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enviada por antonio jr






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